Física Quântica e David Bohm: a visão de uma realidade além do aparente

Artigos e Atualidades | Física Quântica e Consciência | 04/09/2026

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Durante grande parte da história da ciência, a realidade foi imaginada como algo formado por partes independentes. O universo seria uma grande máquina, os objetos teriam existência própria e o observador poderia estudar cada componente separadamente para compreender o funcionamento do todo. A física quântica abalou profundamente essa visão. E entre os cientistas que mais se incomodaram com as consequências filosóficas dessa transformação estava David Bohm.

Bohm foi muito mais do que o criador de uma interpretação alternativa da mecânica quântica. Físico teórico de grande importância no século XX, ele dedicou boa parte de sua trajetória à pergunta sobre o que existe por trás da realidade que percebemos. Sua obra transitou entre a física, a filosofia da ciência e, posteriormente, questões relacionadas à consciência. Ele também manteve durante décadas diálogos com Jiddu Krishnamurti sobre pensamento, mente, tempo e realidade.

É justamente aí que seu pensamento desperta tanto interesse entre aqueles que estudam espiritualidade, consciência e imortalidade da alma.

Mas existe uma distinção essencial: David Bohm não afirmou que a física quântica comprovasse a reencarnação. O que ele fez foi propor uma maneira diferente de pensar a realidade física, na qual aquilo que aparece diante de nós poderia ser apenas uma manifestação de uma ordem mais profunda.

Essa ideia, embora pertença à física e à filosofia de Bohm, acabou encontrando eco em discussões muito mais amplas sobre consciência e natureza da realidade.

Quem foi David Bohm?

David Joseph Bohm nasceu em 1917, nos Estados Unidos, e morreu em Londres em 1992. Doutor pela Universidade da Califórnia em Berkeley, trabalhou inicialmente com física teórica e plasma e posteriormente tornou-se uma figura importante nos debates sobre os fundamentos da mecânica quântica. Foi professor na Universidade de São Paulo entre 1951 e 1955, depois trabalhou em Israel e no Reino Unido, onde permaneceu ligado ao Birkbeck College, da Universidade de Londres. Em 1990, foi eleito membro da Royal Society.

Sua passagem pelo Brasil merece atenção especial. Bohm chegou a São Paulo em 1951, em um momento difícil de sua vida profissional nos Estados Unidos, marcado pelo ambiente político do macarthismo. Na USP, continuou suas pesquisas e publicou trabalhos que contribuíram para sua interpretação da teoria quântica.

Em 1952, publicou na Physical Review dois artigos nos quais apresentou uma interpretação da mecânica quântica baseada em variáveis ocultas. A proposta ficou conhecida posteriormente como teoria de de Broglie-Bohm ou mecânica bohmiana.

A Stanford Encyclopedia of Philosophy descreve a mecânica bohmiana como uma interpretação da teoria quântica na qual a função de onda participa da evolução do sistema, enquanto as posições das partículas constituem parte adicional da descrição física. A teoria foi originalmente desenvolvida por Louis de Broglie em 1927 e retomada por Bohm em 1952.

Portanto, antes de falar sobre espiritualidade, é importante lembrar que Bohm foi, acima de tudo, um físico trabalhando com problemas concretos dos fundamentos da mecânica quântica.

O que David Bohm propôs na física quântica?

A mecânica quântica tradicional apresenta uma realidade bastante diferente daquela descrita pela física clássica. Em vez de imaginar partículas como pequenas bolas com propriedades perfeitamente definidas em todos os momentos, a teoria utiliza uma descrição matemática baseada, entre outros elementos, na função de onda e nas probabilidades dos resultados de determinadas medições.

Bohm considerava que a formulação convencional não precisava ser a última palavra sobre a natureza da realidade.

Em seus trabalhos de 1952, ele apresentou uma interpretação na qual as partículas possuem posições definidas e são guiadas por uma função de onda. A chamada interpretação de Bohm, portanto, não elimina a mecânica quântica, mas oferece uma maneira diferente de interpretá-la.

Essa distinção é importante porque, frequentemente, textos populares apresentam a física quântica de Bohm como se ela tivesse demonstrado que “tudo é energia”, que “a mente cria a realidade” ou que “a consciência sobrevive à morte”.

Essas afirmações vão muito além do que a teoria física estabelece.

O verdadeiro interesse de Bohm está em outra direção: questionar se aquilo que percebemos como realidade separada corresponde à estrutura mais profunda da natureza.

A ordem implícita e a ordem explícita

Essa é provavelmente a ideia de Bohm que mais chamou a atenção de filósofos e estudiosos da consciência.

Em seu livro Wholeness and the Implicate Order, publicado originalmente em 1980, Bohm desenvolveu os conceitos de ordem implícita (implicate order) e ordem explícita (explicate order). A obra procura compreender a realidade como uma totalidade não fragmentada e dedica uma parte significativa à relação entre matéria e consciência.

Podemos entender a diferença de maneira simplificada.

A ordem explícita corresponde àquilo que aparece diante de nós: objetos, acontecimentos e formas que podemos distinguir. É a realidade manifesta, aquela que nossa experiência cotidiana apresenta como constituída por coisas separadas.

A ordem implícita seria uma estrutura mais profunda na qual essas formas estão, de certa maneira, envolvidas ou “enfolded”. Aquilo que aparece separado poderia ser expressão de uma realidade mais fundamental e integrada.

Bohm utilizava imagens e conceitos relacionados ao movimento para evitar a ideia de que o universo fosse simplesmente uma coleção estática de objetos. Em sua obra aparece o conceito de holomovimento, associado a uma realidade em constante movimento na qual as formas manifestas emergem e desaparecem.

Essa visão produziu uma mudança de perspectiva bastante significativa.

Em vez de perguntar apenas “de que são feitas as coisas?”, Bohm também perguntava, em essência, “como as coisas se relacionam dentro de uma totalidade?”

O que isso tem a ver com a consciência?

Aqui chegamos ao ponto que mais interessa aos leitores que estudam espiritualidade.

Bohm não tratava a consciência simplesmente como uma questão isolada da física. Em Wholeness and the Implicate Order, existe um capítulo dedicado especificamente ao universo de envolvimento e desdobramento e à consciência. O índice da obra inclui ainda discussões sobre consciência e ordem implícita e sobre um possível terreno comum entre matéria e consciência.

Isso não significa que Bohm tenha demonstrado cientificamente que a consciência exista independentemente do cérebro.

Significa que ele considerava inadequada uma visão excessivamente fragmentada da realidade e procurava compreender matéria, pensamento e consciência dentro de uma concepção mais ampla de totalidade.

Essa abordagem dialogava com suas conversas com Krishnamurti. Os dois mantiveram uma série de diálogos durante décadas, discutindo temas como pensamento, tempo, percepção, inteligência, mente e a possibilidade de compreender a realidade sem fragmentá-la. O registro histórico desses encontros mostra que foram mais de 30 diálogos e que a relação intelectual entre os dois se estendeu por aproximadamente 25 anos.

É nesse território, entre ciência e filosofia, que David Bohm se torna particularmente interessante para quem investiga a consciência.

A física quântica de David Bohm prova a existência da alma?

Não.

Essa talvez seja a afirmação mais importante de todo o artigo.

A teoria de Bohm não fornece uma demonstração experimental da existência da alma, da vida após a morte ou da reencarnação. Sua interpretação da mecânica quântica é uma teoria física sobre a descrição dos sistemas quânticos. Sua filosofia da totalidade amplia a discussão sobre realidade e consciência, mas não transforma automaticamente conceitos espirituais em conclusões científicas.

A própria existência de abordagens quânticas da consciência é um tema discutido na filosofia contemporânea da mente. A Stanford Encyclopedia of Philosophy observa que existem diferentes propostas que procuram relacionar consciência e teoria quântica, mas elas partem de pressupostos distintos e não constituem uma única teoria científica consensual sobre a consciência.

Portanto, afirmar que “David Bohm provou a imortalidade da alma através da física quântica” seria historicamente e cientificamente incorreto.

Mas existe uma pergunta muito mais interessante.

E se a realidade que percebemos não for a totalidade da realidade existente?

Essa pergunta está muito mais próxima do espírito da investigação de Bohm.

Bohm e a ideia de uma realidade integrada

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Para quem estuda reencarnação, a importância filosófica de Bohm pode estar justamente nessa visão de totalidade.

As tradições espirituais frequentemente descrevem a existência como um processo contínuo. O corpo nasce, cresce, envelhece e morre, enquanto aquilo que é considerado essencial no ser humano continuaria sua trajetória.

A física não confirma essa concepção.

Entretanto, a ideia de que a realidade possa possuir uma estrutura mais profunda do que aquilo que os sentidos apresentam oferece um terreno fértil para reflexão filosófica.

Bohm estava preocupado com a fragmentação do pensamento. Em sua visão, tratar tudo como objetos independentes poderia nos impedir de perceber relações fundamentais entre os fenômenos. Sua obra procurava recuperar uma compreensão da natureza como totalidade dinâmica.

É possível fazer uma aproximação filosófica com a ideia de imortalidade da alma, mas precisamos chamá-la pelo nome correto: uma aproximação filosófica, não uma demonstração científica.

Esse cuidado, longe de diminuir Bohm, torna seu pensamento ainda mais interessante.

O que a física quântica realmente pode nos ensinar sobre a realidade?

Talvez a principal contribuição da física quântica para esse debate não seja oferecer respostas espirituais prontas, mas mostrar que a realidade física é muito mais estranha e profunda do que a experiência cotidiana sugere.

A mecânica quântica é uma teoria extraordinariamente bem-sucedida em suas previsões, mas sua interpretação continua envolvendo questões conceituais profundas. A mecânica bohmiana é uma das interpretações possíveis, e continua sendo estudada no contexto dos fundamentos da teoria quântica.

Bohm acrescentou a esse debate uma pergunta filosófica poderosa: será que estamos confundindo as formas que percebemos com a própria estrutura fundamental da realidade?

Para um pesquisador da espiritualidade, essa pergunta possui enorme valor.

Ela não prova a existência de um mundo espiritual. Não demonstra a reencarnação. Não comprova a sobrevivência da alma.

Mas nos lembra de algo que a própria história da ciência ensina repetidamente: aquilo que parece evidente aos sentidos nem sempre representa a estrutura mais profunda da natureza.

E você acredita que a realidade possui uma dimensão além do que percebemos?

As ideias de David Bohm podem ser interpretadas de maneiras muito diferentes. Para alguns leitores, sua concepção de totalidade e ordem implícita aproxima-se de antigas intuições espirituais sobre a unidade da existência. Para outros, trata-se de uma reflexão filosófica profundamente ligada aos problemas da física quântica, sem qualquer necessidade de interpretação espiritual.

Na sua opinião, a ideia de uma realidade mais profunda e integrada pode ajudar a compreender a consciência e a possibilidade de continuidade da existência após a morte? Ou devemos manter essas questões completamente separadas da física quântica?

Deixe sua opinião nos comentários. O debate entre ciência, filosofia e espiritualidade fica muito mais interessante quando nenhuma dessas áreas precisa ser transformada artificialmente em prova da outra.

David Bohm deixou uma pergunta, não uma resposta definitiva

David Bohm morreu em 1992, mas suas ideias continuam presentes nos debates sobre os fundamentos da mecânica quântica, filosofia da ciência e consciência.

Sua trajetória é especialmente interessante porque reúne dois movimentos aparentemente diferentes: de um lado, o rigor de um físico que procurava interpretar matematicamente a teoria quântica; de outro, a busca filosófica por uma compreensão menos fragmentada da realidade.

Seu trabalho sobre a ordem implícita e explícita, o holomovimento e a relação entre matéria e consciência não constitui uma teoria da reencarnação. Tampouco fornece uma prova da imortalidade da alma.

Mas talvez seu maior legado para esse debate esteja justamente em outra coisa.

Bohm nos convida a desconfiar da ideia de que aquilo que percebemos imediatamente seja necessariamente a realidade inteira.

Para quem investiga a consciência, a morte e a possibilidade de uma existência além do corpo, essa é uma pergunta que permanece aberta.

Talvez a ciência ainda não tenha chegado ao último capítulo dessa história.

Referências

1. Bohm, David. Wholeness and the Implicate Order. Routledge, 1980. Obra fundamental para os conceitos de ordem implícita, ordem explícita, holomovimento e relação entre matéria e consciência.
Routledge – Wholeness and the Implicate Order

2. Bohm, David. “A Suggested Interpretation of the Quantum Theory in Terms of ‘Hidden’ Variables. I”. Physical Review, 1952. Artigo original da interpretação de Bohm da mecânica quântica.
American Physical Society – artigo original de 1952

3. Bohm, David. “A Suggested Interpretation of the Quantum Theory in Terms of ‘Hidden’ Variables. II”. Physical Review, 1952. Continuação do trabalho sobre variáveis ocultas e interpretação da teoria quântica.
American Physical Society – segunda parte do artigo

4. Stanford Encyclopedia of Philosophy. “Bohmian Mechanics”. Apresentação acadêmica da mecânica de de Broglie-Bohm, suas bases, características e questões filosóficas.
Stanford Encyclopedia of Philosophy – Bohmian Mechanics

5. Stanford Encyclopedia of Philosophy. “Quantum Approaches to Consciousness”. Panorama das diferentes propostas que procuram relacionar física quântica e consciência.
Stanford Encyclopedia of Philosophy – Quantum Approaches to Consciousness

6. Royal Society. David Joseph Bohm, 1917–1992. Registro biográfico e acadêmico de Bohm como membro da Royal Society.
Royal Society – David Bohm

7. American Institute of Physics – Niels Bohr Library & Archives. Entrevista de história oral com David Bohm, realizada entre 1986 e 1987, abrangendo sua vida e carreira na física quântica.
American Institute of Physics – Oral History Interview with David Bohm

8. University of São Paulo / UNICENTRO – GPET Física. Material histórico sobre David Bohm, sua passagem pela Universidade de São Paulo e suas contribuições à física e filosofia da ciência.
GPET Física – David Joseph Bohm: Físico e Filósofo

9. Bohm–Krishnamurti Project. Arquivo histórico dedicado aos diálogos entre David Bohm e Jiddu Krishnamurti.
Bohm–Krishnamurti Project – The Dialogues

10. Princeton Alumni Weekly. “A Scholar Finally Gets His Due: David Bohm”. Perfil histórico sobre a carreira de Bohm em Princeton e sua trajetória acadêmica.
Princeton Alumni Weekly – David Bohm


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