Pessoas cegas que relatam visão durante a EQM: o que a ciência já descobriu?

Artigos e Atualidades | Experiências de Quase-Morte (EQM) | 31/08/2026

pessoas cegas que relatam visão durante a eqm

Há experiências que parecem ultrapassar os limites estabelecidos pelos sentidos físicos. Entre elas estão os relatos de pessoas que passaram por uma experiência de quase-morte, ou EQM, e afirmam ter percebido acontecimentos ao redor do próprio corpo enquanto estavam inconscientes ou em condições críticas.

Mas existe uma questão ainda mais desconcertante: o que acontece quando a pessoa que relata ter “visto” durante uma EQM era cega?

A pergunta ganha uma dimensão especial quando envolve pessoas cegas desde o nascimento. Afinal, se alguém nunca teve experiência visual convencional, como poderia descrever cores, formas, ambientes ou acontecimentos como se estivesse enxergando?

Esse fenômeno foi investigado de maneira específica pelo psicólogo Kenneth Ring e pela pesquisadora Sharon Cooper, em um estudo publicado no Journal of Near-Death Studies. Os pesquisadores entrevistaram 31 pessoas cegas ou com deficiência visual grave que haviam relatado experiências de quase-morte ou experiências fora do corpo. O resultado chamou a atenção justamente porque vários participantes disseram ter percebido visualmente o ambiente durante essas experiências.

O tema, entretanto, exige cuidado. Os relatos são intrigantes, mas não permitem afirmar, por si só, que a ciência tenha comprovado a existência da alma ou uma consciência independente do cérebro. O verdadeiro valor desses casos está justamente na pergunta que eles deixam aberta: até onde pode chegar a consciência humana quando os sentidos físicos parecem estar limitados?

O estudo que investigou a visão em pessoas cegas durante a EQM

O trabalho de Kenneth Ring e Sharon Cooper, realizado na década de 1990, procurou responder três questões principais: pessoas cegas podem ter experiências de quase-morte? Essas experiências são semelhantes às relatadas por pessoas que enxergam? E pessoas cegas afirmam perceber visualmente alguma coisa durante uma EQM ou experiência fora do corpo?

O estudo reuniu 31 participantes. Entre eles, 14 eram cegos desde o nascimento, 11 haviam perdido a visão depois dos cinco anos de idade e seis apresentavam deficiência visual grave. Um detalhe importante é que nem todos estavam em uma situação de ameaça direta à vida no momento da experiência. Dez participantes relataram experiências fora do corpo que não ocorreram necessariamente durante uma situação de quase-morte.

Mesmo com essa ressalva, os resultados foram surpreendentes. 25 dos 31 participantes relataram algum tipo de percepção visual durante suas experiências, incluindo nove das 14 pessoas cegas desde o nascimento.

Os autores utilizaram o conceito de “mindsight”, que pode ser traduzido livremente como “visão mental” ou “percepção mental”. A expressão procurava descrever uma experiência que, segundo os relatos, não correspondia necessariamente à visão física convencional.

Algumas pessoas descreviam uma percepção extremamente clara do ambiente, enquanto outras diziam que aquilo era diferente de enxergar normalmente. Havia, portanto, uma dificuldade interessante de linguagem: como explicar uma experiência visual para alguém que jamais havia enxergado?

É justamente nesse ponto que o assunto deixa de ser apenas uma coleção de relatos curiosos e passa a tocar uma questão profunda sobre a natureza da consciência.

Como alguém cego desde o nascimento poderia “ver”?

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Essa é provavelmente a pergunta central de todo o fenômeno.

Uma pessoa que perdeu a visão depois de enxergar durante algum período da vida possui memórias visuais. Pode recordar rostos, cores, objetos, distâncias e ambientes. Portanto, uma experiência visual durante uma EQM poderia, em princípio, ser interpretada como uma reconstrução interna baseada em informações anteriormente adquiridas.

A situação é diferente quando falamos de alguém cego desde o nascimento.

No estudo de Ring e Cooper, nove dos 14 participantes cegos desde o nascimento disseram ter experimentado alguma forma de percepção visual durante suas experiências.

Isso não significa automaticamente que essas pessoas tenham enxergado fisicamente sem os olhos. O estudo não demonstrou esse mecanismo. O que existe são relatos de uma experiência percebida pelos participantes como visual, algumas vezes acompanhada de informações sobre o ambiente.

Essa distinção é fundamental.

Uma EQM não deve ser tratada como um experimento controlado em laboratório. A experiência é normalmente relatada depois que a pessoa retorna à consciência, e a memória humana pode ser influenciada pelo tempo, pelas condições médicas, pelas expectativas e pela reconstrução posterior dos acontecimentos.

Além disso, pesquisadores que analisaram o trabalho de Ring e Cooper destacaram limitações metodológicas, entre elas o fato de a amostra ser formada por voluntários recrutados por organizações de pessoas cegas e por meio de divulgação entre interessados no fenômeno das EQMs. Uma revisão publicada no Journal of Near-Death Studies observou que, embora o trabalho seja importante como investigação qualitativa, não é possível concluir com certeza todas as questões relacionadas à capacidade de pessoas cegas “verem” durante uma EQM.

Essa cautela não elimina a importância dos relatos. Apenas coloca cada coisa em seu devido lugar.

A visão durante a EQM prova que a consciência existe fora do cérebro?

Aqui precisamos separar evidência intrigante de prova científica.

Os relatos de pessoas cegas durante EQMs são frequentemente apresentados como evidência de que a consciência poderia funcionar independentemente do cérebro. Essa interpretação é compatível com algumas perspectivas espiritualistas e com determinadas teorias sobre a sobrevivência da consciência após a morte.

Mas essa não é uma conclusão estabelecida pela ciência.

A pesquisa contemporânea sobre experiências de quase-morte também investiga mecanismos neurológicos capazes de produzir experiências extremamente vívidas em situações de crise fisiológica. Uma revisão publicada em 2025 na Nature Reviews Neurology discutiu possíveis mecanismos psicológicos e neurofisiológicos das EQMs, incluindo alterações no fluxo sanguíneo cerebral, hipóxia, hipercapnia, excitabilidade neuronal e mudanças nos sistemas de neurotransmissores.

Isso significa que existe hoje uma tentativa científica séria de compreender as EQMs a partir do funcionamento do cérebro. Ao mesmo tempo, isso não encerra todas as questões.

Uma revisão de 2024 sobre EQMs após parada cardíaca, por exemplo, observou que os estudos existentes apresentam grande heterogeneidade e que ainda existem dificuldades para distinguir experiências de quase-morte de sonhos, delirium, experiências associadas à entrada ou saída do coma e outros estados alterados de consciência.

Portanto, a pergunta permanece aberta.

Se uma pessoa que nasceu cega relata uma percepção que chama de visual durante uma experiência de quase-morte, estamos diante de uma construção do cérebro, de uma forma incomum de processamento da informação ou de algo que ainda não sabemos explicar?

A ciência ainda não possui uma resposta definitiva.

O que esses relatos têm a ver com a imortalidade da alma?

Para quem estuda a imortalidade da alma e a possibilidade de sobrevivência da consciência após a morte, esses relatos possuem um significado especial.

Durante milênios, diferentes tradições religiosas e filosóficas defenderam que aquilo que chamamos de consciência não se reduz ao corpo físico. A experiência de quase-morte entrou no debate moderno justamente porque algumas pessoas relatam consciência intensa em circunstâncias nas quais o funcionamento normal do organismo está profundamente comprometido.

Os relatos de pessoas cegas acrescentam uma camada ainda mais intrigante: a percepção aparentemente ultrapassaria uma limitação sensorial que, em condições normais, seria indispensável para a visão.

É tentador transformar isso imediatamente em uma conclusão espiritual. Mas talvez seja mais interessante resistir à tentação de fechar a questão cedo demais.

Se a consciência realmente puder existir independentemente do cérebro, estaremos diante de uma descoberta de enormes proporções. Se, ao contrário, todos esses fenômenos puderem ser explicados por mecanismos neurológicos ainda pouco conhecidos, a descoberta também será extraordinária, porque revelará capacidades da mente humana que ainda não compreendemos.

Em qualquer dos casos, o fenômeno merece investigação.

E existe uma consequência particularmente interessante para quem pesquisa reencarnação: se algum dia houver evidências robustas de que a consciência pode existir independentemente do cérebro, isso não provaria automaticamente a reencarnação, mas fortaleceria uma das questões fundamentais que estão por trás dela: a consciência poderia sobreviver à morte do corpo físico?

Essa é uma pergunta diferente, e muito maior.

E você, acredita que uma pessoa cega pode “ver” durante uma EQM?

Os relatos estudados por Kenneth Ring e Sharon Cooper continuam provocando debate porque colocam em choque duas possibilidades: a de que a percepção durante uma EQM seja produzida por mecanismos ainda não completamente compreendidos do cérebro e a de que exista alguma dimensão da consciência que não dependa integralmente dos sentidos físicos.

Você acredita que pessoas cegas desde o nascimento possam realmente ter uma percepção visual durante uma experiência de quase-morte? Ou acredita que a ciência ainda encontrará uma explicação neurológica para esses relatos?

Deixe sua opinião nos comentários. O debate respeitoso entre diferentes perspectivas é uma das melhores maneiras de aprofundar a investigação sobre consciência, morte e sobrevivência espiritual.

O que podemos afirmar com segurança?

O que sabemos hoje é mais interessante quando apresentado sem exageros.

Existe um estudo específico de Kenneth Ring e Sharon Cooper envolvendo 31 pessoas cegas ou com deficiência visual que relataram EQMs ou experiências fora do corpo. Vinte e cinco participantes disseram ter alguma percepção visual durante essas experiências, incluindo nove pessoas cegas desde o nascimento.

Também sabemos que esses resultados foram discutidos e questionados por outros pesquisadores, especialmente quanto à metodologia, à natureza das memórias e à possibilidade de interpretar como “visão” uma experiência que pode ser qualitativamente diferente da percepção visual normal.

E sabemos que a pesquisa contemporânea sobre EQMs continua ativa. Estudos recentes investigam tanto os relatos subjetivos quanto as alterações fisiológicas e neurológicas associadas à parada cardíaca e a outros estados críticos.

O ponto mais prudente, portanto, não é afirmar que essas experiências comprovam a existência da alma, nem descartá-las simplesmente como ilusões.

É reconhecer que pessoas cegas realmente relataram experiências que interpretaram como visuais durante EQMs e experiências fora do corpo, e que esse fenômeno continua sendo uma questão relevante para os estudos da consciência.

Talvez a grande pergunta não seja apenas se alguém pode enxergar sem os olhos.

Talvez seja esta: o que exatamente estamos chamando de consciência quando os olhos deixam de ser suficientes para explicar aquilo que uma pessoa diz ter percebido?

Referências

1. Ring, Kenneth; Cooper, Sharon. Near-Death and Out-of-Body Experiences in the Blind: A Study of Apparent Eyeless Vision. Journal of Near-Death Studies, vol. 16, n. 2, 1997. University of North Texas Digital Library.

https://digital.library.unt.edu/ark:/67531/metadc799333/

2. Ring, Kenneth; Cooper, Sharon. Mindsight: Near-Death and Out-of-Body Experiences in the Blind. William James Center for Consciousness Studies, 1999.

https://books.google.com/books/about/Mindsight.html?id=gUBCPQAACAAJ

3. Twemlow, Stuart W. Review of Mindsight: Near-Death and Out-of-Body Experiences in the Blind. Journal of Near-Death Studies, 2002.

https://digital.library.unt.edu/ark:/67531/metadc799013/

4. Martial, Charlotte et al. A neuroscientific model of near-death experiences. Nature Reviews Neurology, 2025.

https://www.nature.com/articles/s41582-025-01072-z

5. Kovoor, Joshua G. et al. Near-death experiences after cardiac arrest: a scoping review. Discover Mental Health, 2024.

https://link.springer.com/article/10.1007/s44192-024-00072-7

6. Nam, Hyunock. Consciousness and the Dying Brain. 2024.

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11096058/

7. Parnia, Sam et al. Pesquisas sobre consciência durante ressuscitação cardíaca e experiências de quase-morte, incluindo os estudos AWARE.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38603803/


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